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Disrupção de modelos de negócio em tempos de incerteza

Foto de homem analisando papeis e modelos de negócio.

US$ 2,7 bilhões foi o tamanho dos investimentos de venture capital no ecossistema brasileiro de startups em 2019, segundo o estudo Inside Venture Capital Brasil, realizado pela fintech Distrito. Isso representa alta de 80% em relação ao ano anterior e 198% na comparação com 2017. São números que mostram claramente um mercado em crescimento acelerado e que seguiu em plena velocidade até os primeiros cinco meses deste ano, com o fechamento de 116 negócios e US$ 516 milhões investidos – retrato de negociações que já estavam sendo tratadas antes da pandemia.

Esse ritmo certamente será bastante afetado a partir do terceiro e quarto trimestres deste ano, reflexo de um mercado mais receoso desde quando o novo coronavírus começou a ganhar força no país. Haverá uma retração natural no volume de investimento de venture capital, rompendo a tendência de crescimento que vimos nesses últimos anos. Fundos que estavam captando agora terão dificuldade devido à maior aversão ao risco por parte dos investidores. Há menor disponibilidade de capital e maiores desafios para os empreendedores.

Mas, assim como é certo esperar o freio nos investimentos em novos negócios, é razoável supor que, em algum momento, teremos uma retomada do apetite dos investidores e o retorno do mercado de venture capital. A questão é identificar onde, ou em que condições, surgirão as novas oportunidades de disrupção nos modelos de negócio num mundo “covidiano” e, portanto, onde concentrar as apostas.

Defendo que estas oportunidades estão nas atividades econômicas, ou modelos de negócio, mais impactadas pela pandemia. Quanto maior o nível de impacto sofrido, mais fértil deve ser o setor para o surgimento de novas formas de se relacionar, experimentar, produzir, consumir e entregar produtos e serviços. E os maiores impactos estão em atividades que demandam muitas e intensas interações pessoais para que as transações econômicas ocorram.

Portanto, para iniciar esta busca pelas áreas mais propensas à disrupção, proponho a análise das características das transações que ocorrem entre as empresas e os clientes em cada tipo de atividade econômica, ou modelo de negócio. Essas características podem ser classificadas em dois eixos:

  • X) o volume de pessoas envolvidas e a quantidade de interações pessoais demandadas em cada transação (muitas interações e pessoas, num extremo do eixo, ou poucas, no outro extremo deste eixo X);
  • Y) intensidade destas interações pessoais e proximidade entre as pessoas em cada transação (interações físicas e intensas num extremo deste eixo ou remotase superficiais, no outro extremo deste eixo Y).

Cruzando os eixos X e Y, podemos mapear os segmentos ou modelos de negócio mais propensos à disrupção imposta pela realidade da pandemia e que demandam maior nível de transformação – prato cheio para os empreendedores e investidores de venture capital mais atentos.

O campo mais fértil para disrupção está onde se encaixam atividades que demandam grande volume de pessoas, muitas interações pessoais e intensas e/ou próximas. Nelas, podemos estimar que os impactos serão os mais profundos e até mesmo permanentes. Como exemplo de atividades ou negócios, posso citar eventos, congressos, turismo de entretenimento, cruzeiros, teatros, cinemas e similares. São segmentos potencialmente mais expostos à disrupção na forma tradicional de vender, operar e entregar.

Já as áreas menos propensas à disrupção devido à pandemia são as atividades com transações que acontecem via interações pessoais pouco intensas, distantes e remotas. Além disso, estas transações demandam quantidade relativamente reduzida de pessoas para acontecerem. Exemplos são o agronegócio e negócios de recursos naturais, marketplaces digitais, transporte, logística, serviços de infraestrutura e determinados setores de tecnologia de informação e comunicação (TIC).

Essas são pistas de onde podem surgir novos modelos de negócio disruptivos. Entretanto, ainda é preciso cautela, pois há questões sobre as variáveis pós-pandemia que ninguém sabe ao certo a resposta. Ainda é difícil ler o quanto de toda essa mudança do consumidor permanecerá quando dias melhores chegarem, principalmente porque os países que até então tinham sido os mais impactados pela pandemiaainda estão em reabertura e retomada. O risco é algo usual em investimentos de venture capital mas, sem dúvida, é hora de manter o olhar apurado e buscar novas oportunidades, mesmo em tempos de incerteza.

Por Clau Sganzerla, Vice-Presidente de Estratégia e Inovação no grupo Algar

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